Mente e Mediunidade

Quantas ideias passam por nossa mente a cada minuto! Você já parou para ouvir seus pensamentos? Sabe quais histórias se repetem continuamente? Ou que emoções cismam em retornar, trazendo lembranças, dor e sofrimento?

A mente é mutável, dual e sutil. Não há como impedir o movimento do fluxo da mente, já que, por si só, ela é o próprio movimento. A mente é a representação do ar e do éter, ou espaço – a energia sutil do universo. Na mente tudo é dinâmico e muda como o curso de um rio: nunca é o mesmo. Ela tem força, energia. Assim como o vento, leva os pensamentos e sentimentos. Mas como o espaço, abrange tudo o que permeia nosso consciente e inconsciente. A mente é sensível, e pequenas palavras, emoções, atos ou energias a afetam.

E a mente também é dual. Constantemente vamos do amor ao ódio, da atração à repulsão, do gozo à culpa. A mente se desloca nos opostos. Um pensamento já traz a possibilidade do seu contrário e o reforça. Tentar segurar a mente é um trabalho em vão; mas é possível aceitar o diferente e conservar o pensamento longe dos extremos.

A mente é um objeto, pois podemos observá-la em ação. Mas também é um instrumento, ou uma ferramenta, pois trabalha para processar todas as percepções recebidas por nossos cinco sentidos. É através dela que nos comunicamos com o mundo, recebemos, filtramos, analisamos, concluímos e expressamos.

Tudo certo até aí. A dificuldade surge quando nos tornamos escravos da mente. Quando esse fluxo incessante de ideias e pensamentos nos domina, ao invés de ser dominado. Mas como controlar a mente?

Atenção e consciência

O primeiro passo é nos tornarmos conscientes do que pensamos e com que frequência. Depois aprender a projetar pensamentos positivos e evitar os negativos. A cura está em mudar a forma de pensar. Só quando mudamos os nossos pensamentos mais profundos é que podemos realmente mudar e ir além dos limites impostos pela mente. É mais do que mudar nossas ideias sobre as coisas, é alterar nossos sentimentos e instintos mais profundos.

Outro passo é desenvolver nossa inteligência. Não falo de decorar livros, ou se tornar um expert em algum assunto (ou em todos). Falo de desenvolver a inteligência enquanto parte objetiva da mente capaz da observação distanciada. É olharmos para nós mesmos como se fossemos uma outra pessoa. É conhecermos nossos pensamentos e emoções mais íntimos. Porque de um lado a mente capta o que de vem de fora e se torna “intelecto”. De outro, ela olha para dentro por meio de nossa consciência mais profunda e se torna o que poderíamos chamar de “verdadeira inteligência”. Essa é a capacidade de perceber o conteúdo por trás da aparência; de ir além das crenças, preconceitos, ideias preconcebidas; de encontrar a verdade que toca e ressoa em nossa alma.

A ética e a verdade são mais do que conceitos estabelecidos por uma sociedade. Todos temos um senso ético inato, que podemos chamar de consciência. Pode ser que, para alguns, a necessidade ou os valores aprendidos mascarem essa consciência. Mas há um sentir interno que sempre nos diz se algo é certo ou errado, além de valores sociais. Quanto mais inteligentes nos tornamos, mais forte é nossa consciência, melhores são nossos pensamentos e mais clara é nossa mente.

De manas a Chitta

O ayurveda, a milenar medicina indiana, diz que a mente, enquanto pensamentos, sensações e sentidos, é chamada de Manas. Num nível intermediário, de inteligência ou capacidade de discriminar e julgar as coisas, temos Buddhi. Num nível mais profundo, enquanto mente interior ou parte central da consciência, está Chitta. A evolução consiste em observar e controlar Manas, desenvolver Buddhi e alcançar a percepção clara em Chitta.

Incorporação e mediunidade

Mas o que isso tem a ver com a mediunidade? TUDO! Para uma incorporação acontecer é necessária uma mente silenciosa e contemplativa. A maioria dos médiuns é consciente, ou seja, não “apaga” durante a incorporação, participa como um espectador. Apesar de estar consciente, é normal esquecer de parte do que foi dito. Um bom médium não atrapalha, não julga, não interfere na comunicação. Quando isso acontece, a incorporação deixa de ser plena. Ele passa a estar imantado ou mesmo apenas conectado pelo chakra laríngeo, caracterizando uma psicofonia.

Mas podemos ir muito mais além! Como sermos seres melhores se somos dominados por nossos pensamentos e emoções desordenadas? Como cuidarmos de nosso próximo ou transmitirmos lições e ensinamentos sem curarmos nossas próprias dores e desequilíbrios? Como nos curarmos sem termos inteligência sobre nossas verdades interiores? Como nos conectarmos com nossos guias e orixás sem percebermos a verdade maior que tudo permeia, só alcançada na clareza e sensibilidade de nossa consciência superior?

Para começar este caminho, é preciso observar e cuidar de nossos pensamentos. Todos os dias, o tempo todo. Depois, aprender alguma técnica de meditação. Saber como focar a atenção e silenciar a mente. Também é muito importante a autoanálise e o autoconhecimento. E pra isso precisamos buscar o que chamamos de “silêncio interior”. Uma pessoa serena e equilibrada é o melhor médium que nossa querida Umbanda pode ter.