A Herança Cultural da Umbanda

Qual a melhor forma de cultuar o sagrado em sua vida? Você prefere as religiões monoteístas, que acreditam num Deus único? Ou enxerga no politeísmo uma maneira mais leve de se relacionar com o Divino?

Eu pratico uma religião que acredita no Deus maior, o grande criador, mas que também cultua divindades que representam manifestações desse Deus na sua própria criação.

Vamos aos poucos… Deus é um só. Força criadora de toda a vida, Pai e Mãe, princípio inteligente que tudo rege e em tudo está. Essa energia suprema é onipotente e onipresente. Somos criados à sua imagem e semelhança, mas como um embrião, que precisa crescer e aprender a se tornar pleno até unir-se novamente ao próprio criador.

Mas não podemos enxergar o Todo sendo parte dele.

Então, desde o início dos tempos, Deus se manifesta na Criação por meio de divindades que representam suas habilidades e virtudes. São as guardadoras das forças da natureza, cada uma expressando um aspecto do Deus maior. Como se fossem o presidente e os ministros. Mas multiplicado ao infinito e à toda a criação.   

A Miscigenação no Brasil

No Brasil, não existe uma religião oficial. Mas os dados estatísticos mostram que mais de 80% da população é cristã. Sendo que a maioria ainda se declara católica no censo demográfico. Então, podemos afirmar que, ainda hoje, nosso país tem como base teológica a crença no Deus único.

E isso começou na colonização. Quando os Europeus chegaram ao nosso continente, suas crenças foram impostas e passaram a ser a religião oficial do país. Então, fosse essa a sua crença pessoal ou não, se você vivia no Brasil, deveria ir à Igreja e seguir os fundamentos católicos.

Mas será que a maior parte das pessoas que realmente colonizaram nosso solo veio da Europa? Não. Os Europeus foram os responsáveis pela colonização, mas a maioria das pessoas que ocuparam e trabalharam na terra não vieram daquele continente.

Os indígenas, que já habitavam nossas florestas, possuíam uma visão natural e primitiva do divino. Eram mais de mil povos que viviam em harmonia com a natureza por meio de práticas sagradas. Eles possuíam um panteão de divindades naturais bastante variado. Suas práticas nunca foram formalizadas, o que não diminui a força da religião indígena, que permanece viva apesar do assassinato em massa das tribos quando do início da “colonização”.

No único censo completo realizado no período colonial, em 1872, 58% da população se declarou de pele parda ou preta. Somente 38% se declarou branco. Então, aqueles que realmente colonizaram o Brasil foram os escravos e os índios. E nenhum deles havia antes sequer ouvido falar em Jesus Cristo.

Mas assim como os índios, que possuíam uma forte conexão com as forças da natureza, os africanos trouxeram uma base religiosa sólida e estruturada. Sua fé não estava traduzida em livros ou templos de pedra, mas numa tradição oral que, de geração em geração, contava os feitos e mostrava os poderes das divindades naturais chamadas de Orixás. Sua prática incluía a dança, o canto e a magia natural.

As Divindades na Umbanda

Dessa miscigenação cultural, apesar da imposição do Catolicismo, surgiram muitos cultos e práticas religiosas. Uma delas foi a Umbanda. Uma religião linda que, ao surgir, se apropriou de nomes, práticas, crenças e rituais de todos os povos que formaram o Brasil.

Então, na Umbanda, se crê em Deus e em Jesus Cristo. É uma religião Cristã. Na Umbanda, se usa das ervas, da defumação e de toda a magia da pajelança indígena. Na Umbanda, se cultua Orixás, faz-se oferendas e utiliza-se dos elementos naturais para a prática da Magia.

Até aí, poderia estar tudo bem. Mas quando falamos de apropriação, não especificamos a ressignificação. Praticamente tudo que foi usado como base foi transformado, reentendido e modificado para o novo ritual da nova religião.

Então Jesus Cristo continuou sendo o grande mestre que veio ensinar a fé, o perdão e a caridade. Mas ele deixou de ser O Filho de Deus, parte da Trindade Católica. E a Bíblia não é o livro sagrado da Umbanda.

Da mesma forma que os Orixás mudaram de forma, de cor, de sentindo, passando a expressar características diferentes das retratadas nas lendas Africanas. Claro que nas próprias lendas, de acordo com a Nação, os Orixás eram contados de maneiras diferentes. Mas no Candomblé, religião Afro-Brasileira de Culto aos Orixás, ainda foi mantida uma grande semelhança com os Cultos de origem. Já na Umbanda, a mudança foi radical.

E note-se aqui que a Umbanda não é uma só. A Umbanda tem uma base ritualística que a define, principalmente por meio da incorporação de espíritos humanos divididos em Linhas de Trabalho para a prática da caridade. Mas existem muitas formas de praticar Umbanda e, hoje, muitas diferenças teológicas entre autores e linhas.

Orixás ou Orixás?

Uma das maiores discussões hoje na Umbanda é justamente sobre os Orixás. Nós continuamos cultuando os mesmos Orixás contados nas histórias dentro dos navios pelos escravos trazidos da África?

As divindades naturais existiram e existem em todas as épocas da história de nosso planeta. Conhecemos as divindades Celtas, Egípcias, Gregas, Romanas, Hindus, Indígenas, Africanas… E tantas outras menos conhecidas ou esquecidas pelo tempo na história. Elas ganham novos nomes, novas caras, novas cores, mas representam sempre os mesmos astros, elementos, virtudes e habilidades, que só um ser divino poderia ter.

Na verdade, as características não são “puras”, então as divindades mostram semelhanças, mas raramente são iguais de uma cultura para a outra. Nas lendas, elas trazem arquétipos, sempre associados a características humanas. Mas querem mostrar qualidades do próprio Deus, assim como a capacidade de manipular os elementos e forças da natureza.

Afrodite é semelhante a Lakshimi, que é semelhante a Vênus, que lembra Oxum. Mas elas não são iguais. São expressões da mesma força de feminino puro, belo, exuberante, abundante, amoroso.

Então, voltando aos Orixás, eles certamente não são os mesmos e não estão iguais. Mas, na ausência de nomes novos e mais adequados, a apropriação pode ser vista como uma homenagem. Uma homenagem à Cultura, ao povo, ao sofrimento e à herança dos africanos. A nova religião não é perfeita, mas ainda está em construção. A Umbanda tem, oficialmente, pouco mais de 100 anos. Para a história, uma criança.

Antes de falar em certo ou errado, podemos entender como chegamos até aqui e decidir como seguiremos adiante. Minha sugestão é: com respeito, amor, caridade, perdão, sabedoria, compaixão e fé. Como sugerem os Guias de Umbanda quando se manifestam em seus médiuns incorporados.