(Parte de palestra dada pelo preto-velho Pai Otávio, incorporado na médium Marina Nagel)

Deus não é um ser, não é uma pessoa. Deus não é uma entidade, não é um anjo, não é um espírito. Deus é uma força, um princípio inteligente. Deus é pura energia, é a fonte primordial de toda a energia que existe em toda criação. Tudo que se manifesta na criação advém de uma única fonte de energia primária. Uma fonte de energia que é, ao mesmo tempo, passiva e ativa, que vibra as duas polaridades dentro da criação – isso é Deus, a energia que deu início a tudo. E essa energia, que é inteligente por si só, que sabe o que fazer sem que ninguém mande, é o que rege e permeia tudo na criação. Vocês são feitos de Deus, cada célula do seu corpo é um pedaço de Deus, porque essa energia, esse princípio se exteriorizou e se expande continuamente, dando força e criando tudo o que existe. É estranho pensar Deus assim, né? Energia.

Por isso que Deus está dentro e está fora, está no alto e está no embaixo, mesmo na mais profunda dimensão negativa, onde só há escuridão, tudo é formado de Deus. Lá não se enxerga a beleza Divina, lá não se percebe o que esse princípio quer, porque lá só há ignorância. Lá, nas dimensões negativas, escuras, onde há dor, a ilusão é tão grande que, mesmo Deus estando lá, eles não são capazes de ver, porque, para isso, precisa abrir os olhos e enxergar, mas lá é muito escuro, e a escuridão é a ignorância. Mas não quer dizer que tudo que lá está não é formado por Deus, é como se existisse uma capa que cobre e não permite que se veja do que cada coisa é formada. Quanto mais se sobe, menos ilusão existe, menos ignorância existe e, com isso, mais luz, mais informação, mais conhecimento, mais sabedoria, mais transcendência. E daí se enxerga que tudo é Deus – porque Deus é pura energia, é o princípio inteligente que tudo rege, é a força que tudo criou. E essa força que, no começo era uma com duas polaridades, ao se manifestar na criação, se polarizou como a luz branca que vem do sol, ao tocar um cristal, se transforma em sete, visível aos vossos olhos. Mas se for olhar entre as sete cores que vossos olhos enxergam, há muitas outras nuances e diferentes tonalidades entre cada uma das cores. Isso é Deus.

FORA DE DEUS

Quando Deus, força primária, inicia seu processo de expansão e materialização, essa energia, de forma natural, sofre refração – porque ela não pode se expandir na sua unicidade, na sua força total, ela precisa se dividir para criar. E essas energias primárias, do início da criação, vão dar origem aos elementos, às faixas vibratórias, aos poderes, ao que nós chamamos de divindades de Deus, aos deuses e deusas encontrados em todas as religiões do planeta. Então, a força única, primordial, para se manifestar, se divide. Para assim, na sua divisão, poder se unir novamente e criar.

Não é possível, na unicidade primária, que as polaridades se dividam. Para que o positivo e o negativo, o feminino e o masculino, o verbo e a massa primordial, se dividam é preciso que essa energia sofra refração. E sofrendo refração, ela se manifesta na criação por meio das faixas vibratórias de energia, já polarizadas. E são essas “partes” de Deus que vão criar mundos com energias e elementos diferentes, que vão criar todo o universo conhecido.

Mas Deus não se dividiu só em sete, ele se dividiu em toda gama possível de energia. Mas os olhos dos encarnados enxergam sete principais. E aí a Umbanda diz: existem sete linhas, sete vibrações de Deus, cada uma na polaridade positiva e negativa, masculina e feminina, mas a combinação disso são muitas outras energias, muitos outros Orixás. Na Umbanda Sagrada, Rubens Saraceni fala sobre os entrecruzamentos dessas faixas de vibração, cada uma dessas energias se combinando na sua multiplicidade, formam uma infinidade de divindades, uma infinidade de energias, de peculiaridades.

Então, o Deus único se divide, e nessa combinação, centenas de criações diferentes. Aí, as energias principais dão origem aos principais elementos da natureza. E esses elementos nada mais são do que uma divisão da energia de Deus. Ali continua existindo o mesmo princípio inteligente que tudo rege, mas dividido numa vibração específica. A vibração da energia que é quente, vermelho, fogo, pedreira formada da lava quente e trovão, que equilibra, que traz a sabedoria superior, na Umbanda, nós chamamos de Xangô, mas essa mesma energia não precisa ter nome nenhum, porque é uma divisão do princípio maior inteligente, que é Deus.

E, assim, cada uma dessas energias, num padrão vibratório diferente, carregando características únicas e exclusivas, em cada cultura, ganha um nome diferente e todas elas têm um princípio energético que rege e sustenta – que é o se chama de mistério. Deus, o princípio maior, continua sendo um só, que tudo rege, mas Ele só se mostra ao ser exteriorizado, ao ser dividido para criar – não dá para vê-Lo todo, ninguém conseguiria vê-Lo integralmente, porque Ele todo só é possível em si mesmo. A energia única e pura de Deus só é possível existir inteira nesse princípio, nessa totalidade da criação. Aqui, onde estamos, só é possível ver as partes da divisão. E, por isso, há tantos mundos, tantas galáxias, tantos planos de energia, tantos Orixás, tantos elementos e tantas visões diferentes para o mesmo fato, porque cada uma segue uma forma de enxergar e de ver. Enxerga-se por meio de uma parte.

DIVINDADES NATURAIS

Vamos dar os nomes da Umbanda: em um filho de Xangô, que tem essa energia fogo, equilibradora, qual das energias das divisões de Deus vibra mais forte naquele espírito, naquele corpo? Qual vibração de energia que alimenta aquela alma de forma mais forte? De onde ele veio? De qual plano esse ser veio? Se ele vibra mais forte a energia do fogo, ele nunca vai enxergar a vida e viver a vida e agir na vida como uma filha de Iemanjá, que veio de um plano aquático, que foi criada em Deus e nasceu numa outra energia de vibração azul clara, limpa, cristalina, criativa, amorosa – a energia que dá origem à vida, a grande mãe. O ser que veio desse plano natural da água sente e enxerga o mundo com a cor azul clara e não com a cor vermelha. A partícula de Deus que vibra dentro desse corpo e que nutre a alma pulsa e vibra numa velocidade muito diferente da do filho de Xangô. Então, como é que essa pessoa vai agir no mundo, ver o mundo, a vida e as situações do mesmo jeito que o outro, se o corpo e a alma vibram num lugar diferente, a visão é diferente e os verbos e as formas de enxergar são diferentes? Não é possível.

Por isso, há tanta discórdia nesse mundo. E isso que esse véio está falando de quem está vibrando de acordo com a alma, sem véu de ilusão. Há divergência mesmo entre aqueles que estão enxergando a vida na sua natureza, com luz, com total consciência desta força Divina que lhes regem, com muita claridade e sabedoria e consciência. Mesmo com toda essa consciência Divina, um ser com muita luz de natureza água e um ser com muita luz do fogo, ainda assim, vão ver a vida muito diferente e agir muito diferente e ser muito diferentes e sentir as coisas de um modo muito diferente. Agora imaginem esses mesmos dois seres, se estiverem na ignorância, na ilusão, na escuridão, na sombra e na dor? E daí perguntam: por que ninguém se entende nesse mundo, véio? Porque ninguém entende isso: que Deus é um só. Mas nós estamos longe da unicidade divina, longe da unicidade dessa energia que rege toda criação. Nós sentimos, vemos e agimos de acordo com uma pequena partícula disso, mas que é o mesmo princípio que rege todos nós – é Deus. Esse princípio inteligente que faz o corpo funcionar, cada célula funcionar, é o mesmo para todos: para essa planta, para esse a chama dessa vela, para os animais, para os astros no céu.

Quando o ser vive desconectado desse princípio inteligente, e o véio repete a palavra “princípio inteligente”, porque, se nós entendemos e sentimos esse Deus em nós, a gente consegue se conectar a tudo, e a gente interage com os outros e com o mundo de forma respeitosa, consciente. Isso porque sabe que o outro não é igual a nós, mas ele vem do mesmo lugar e é regido pela mesma energia, numa vibração e num potencial diferente do nosso, mas o mesmo. Se nós vibrássemos nesse princípio inteligente, não existiria briga, não existiriam guerras, nem dor. Se não vibramos no princípio inteligente, então, estamos vibrando na burrice e na ignorância. Os atos de dor e agressão verbal, emocional, física, são atos de ignorância, de ilusão, são atos de quem não entende que é inteligente e que essa força que tudo rege faz parte de si mesmo.

SENTINDO DEUS

Quando se consegue pôr os pés na terra, respirar o ar puro e olhar para o alto; e consegue se conectar com o embaixo, o meio e o alto, parar a mente que tudo racionaliza, cria, pensa, imagina e distorce – com a mente parada, em conexão com a natureza, o ser sente vibrando no seu íntimo essa energia que tudo rege, em outras palavras, sente Deus. Quando sai da mente dividida pela ilusão da matéria, pela ilusão dos cinco sentidos que vocês vivenciam nesse plano, e entende que tudo isso é externo, sente Deus. Sentir Deus não é um ato de transcendência, sentir Deus não tem nada a ver com estar em êxtase, sentir Deus é um ato simples de sair do externo, dos cinco sentidos, e sentir vibrando dentro de si esse princípio inteligente.

Uma pessoa não precisa realizar um grande feito, não precisa ser um grande herói e ter super poderes, ou viver nenhuma experiência mística para encontrar Deus – precisa é parar de pensar tanta besteira, silenciar a mente e perceber que Deus faz parte de você. Cada célula sua é regida, guiada e sustentada por Deus; cada parte da sua alma imortal é uma molécula de vibração do próprio Deus. A alegria e a satisfação nunca vai ser encontrada fora, porque Deus não está fora, Deus está na interligação do todo. Só se encontra satisfação quando se percebe princípios da unidade divina.

Por isso que véio falou: para a mente e se conecta com a terra, o ar e o alto, porque aí você vai estar em contato com quase todos os elementos da criação: a terra, a umidade da água, o ar, o sol que é uma manifestação do fogo divino. Aí você está em contato, se conectando com todos os elementos da natureza (o vegetal, o mineral). E aí, sentindo todos os elementos e se conectando com todos eles, você sente um pouquinho da unidade, você deixa de se sentir separado. A dor existe na divisão e na separação. Quanto mais o ser ascende, mais o ser se ilumina, mais ele consegue se sentir parte do todo, conectado.

Por que você sente tanta felicidade quando está amando? Porque encontra no outro, no toque com outro ser, com elementos, energias e forças diferentes da sua, e por meio de um dos sentimentos que mais nos conecta (por que qual é o sentimento que une e conecta? O amor), por meio do amor, você encontra conexão. Quer momento maior para sentir Deus do que ir para o meio da natureza com quem se ama? Você encontra unidade ao se conectar com o ambiente e com outro ser; você se sente menos dividido, menos sozinho; você sente o coração pleno; você sente cada célula do seu corpo cheia de energia, porque está em conexão.

Na Umbanda, você aprende a ir para a natureza, ir rezando, acendendo vela; você aprende a se conectar com as forças da natureza, com os Orixás. Aí está se conectando com Deus em muitas de suas vibrações e, nesta conexão, você sente a unidade, você sente preenchimento, você sente satisfação, você se sente perto de Deus. É a vibração da energia da água de uma cachoeira, é a força da pedra, é a força da água do mar, da areia que você está pisando. Vai numa praia: tem areia, tem água, tem sal, tem sol – está se conectando com quantos elementos, quantas forças, quantas energias? Com quantos mistérios, com quantas divindades? E ali, nessa conexão, se sente completo, mais inteiro, mais uno, que parece que encontrou Deus. O que não percebeu é que Deus estava ali o tempo todo, mas na divisão é muito difícil sentir isso. Vossa mente está o tempo todo dividindo, você nunca consegue se colocar no lugar do outro. O outro é sempre o culpado, o errado, o ruim, o cheio de defeito, o que lhe faz mal; o outro é sempre a fonte do mal e da dor. A mente é que cria essa divisão, porque a mente não percebe que o outro é uma parte diferente dessa energia, que vibra e age diferente de você. E quanto mais luz se tem, menos ignorância, menos sombra, mais fácil é enxergar o outro, mais fácil é olhar para cada um por meio do sentimento do amor que é o que conecta.

Os grandes santos sentiam o que vocês chamam de amor universal, porque para eles não existia mais divisão, só existia união. Então, você não enxerga mais no outro alguém diferente de você. Você enxerga o outro como mais uma parte do todo do qual você é parte. E daí, não é que o outro é igual a você, mas se ele veio do mesmo lugar e vai voltar para o mesmo lugar, se ele é parte do mesmo Deus que você, como você vai odiá-lo? Como não querer se unir a ele, não por meio do sexo, mas se unir a ele por meio do processo energético de amor? Se unir a ele pela conexão de elementos, se unir a ele por meio da bondade, da caridade, do auxílio; se unir a ele por meio do: “eu lhe ajudo e lhe amo”. Quem sabe, sentindo meu amor, sentindo por meio do meu amor um pouquinho do que é Deus, um pouquinho da união e da conexão, você não acorda?